Governo desconsiderou alertas de Ceuta antes da onda migratória, dizem sindicatos de trabalhadores da fronteira

Crise em Ceuta completa uma semana ainda sem respostas Nas semanas que antecederam a chegada de mais de 70.000 imigrantes ao enclave espanhol de Ceuta, os agent...

Governo desconsiderou alertas de Ceuta antes da onda migratória, dizem sindicatos de trabalhadores da fronteira
Governo desconsiderou alertas de Ceuta antes da onda migratória, dizem sindicatos de trabalhadores da fronteira (Foto: Reprodução)

Crise em Ceuta completa uma semana ainda sem respostas Nas semanas que antecederam a chegada de mais de 70.000 imigrantes ao enclave espanhol de Ceuta, os agentes fronteiriços alertaram o governo central da Espanha de que mais pessoas, incentivadas pelas redes sociais, estavam chegando por mar, acrescentando que temiam uma escalada do conflito. O governo espanhol não deu ouvidos aos seus avisos e tomou poucas medidas, disseram eles à Reuters. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Uma decisão judicial espanhola, publicada em 29 de junho, declarou que os imigrantes só poderiam ser imediatamente impedidos de entrar em Ceuta se cruzassem uma barreira física, especificando que quem nadasse até o enclave não a ultrapassava. A notícia dessa decisão e os vídeos de imigrantes que conseguiram entrar em Ceuta incentivaram cada vez mais pessoas a tentarem a sorte. O governo espanhol atribuiu as mortes ocorridas na travessia em massa em Ceuta nos dias 29 e 30 de julho à desinformação sobre a decisão, disseminada por redes criminosas. No entanto, alertas públicos e privados emitidos por sindicatos que representam trabalhadores fronteiriços, vistos pela Reuters, destacam que as autoridades espanholas foram avisadas semanas antes que as chegadas ao enclave no Norte da África poderiam aumentar e foram instadas a agir rapidamente. As autoridades espanholas afirmam que 80 pessoas morreram na confusão e as autoridades marroquinas disseram que 14 corpos foram recuperados em seu território, elevando o número de mortes confirmadas para 94. Grupos de direitos humanos dizem que mais pessoas continuam desaparecidas e que o número pode ser ainda maior. LEIA MAIS Travessia mortal: MAPA mostra rotas por mar e terra em que imigrantes se arriscam para chegar à Europa Espanha impõe controles de fronteira a viajantes vindos da Itália em meio a disputa sobre imigração 'Coquetel explosivo'' Rachid Sbihi, porta-voz do sindicato da Guarda Civil Espanhola, AUGC, em Ceuta, disse que ninguém poderia ter imaginado a dimensão do que acabou acontecendo em 30 de julho. "[Mas] entendemos que a decisão judicial provocaria mais chegadas. A decisão, as gangues criminosas e as redes sociais formavam um coquetel explosivo", disse ele à Reuters. Questionado sobre os comentários de que a Espanha não agiu a tempo, um porta-voz do Ministério do Interior espanhol disse que as autoridades estudaram várias opções após a decisão judicial, antes de instalar uma barreira flutuante no oceano em 1º de agosto. "Este trabalho prévio de avaliação e análise permitiu que a barreira flutuante fosse instalada apenas 48 horas após a decisão de sua instalação, na sequência da chegada em massa em 30 de julho", afirmaram em comunicado à Reuters. Imigrantes menores de idade fazem fila em frente a delegacia de Ceuta para serem registradas REUTERS/Violeta Santos Moura Uma brecha legal A Reuters analisou seis casos de declarações escritas e cartas enviadas por sindicatos da fronteira espanhola ao representante do governo nacional em Ceuta e ao chefe de polícia do enclave, solicitando orientação e ação do governo após a decisão judicial. "[A decisão] abriu uma brecha legal que só protocolos bem definidos podem fechar", afirmou o sindicato da Guarda Civil da AUGC, em um comunicado online em 10 de julho. Até que uma barreira física seja instalada no mar, "a responsabilidade está nas mãos daqueles que devem fornecer instruções claras aos agentes na fronteira todas as noites", acrescentou. "As quadrilhas criminosas analisam todas as mudanças normativas e legais e adaptam suas rotas e métodos quando percebem que os procedimentos de retorno se tornaram mais lentos ou complexos", alertou o sindicato policial SUP três dias depois, no X, pedindo o reforço de seus efetivos e uma política de imigração "coerente e eficaz" para evitar que a decisão seja explorada. Em uma carta ao chefe de polícia de Ceuta, datada de 23 de julho e vista pela Reuters, o sindicato destacou "as constantes chegadas por mar, com repercussões diretas sobre os funcionários, para as quais a infraestrutura policial convencional não foi concebida" e pediu o estabelecimento de um centro de acolhimento temporário. O Ministério do Interior da Espanha, responsável pela polícia, não respondeu, enquanto o delegado do governo ofereceu uma reunião semanas depois, de acordo com porta-vozes dos sindicatos AUGC e SUP. Não há qualquer ligação entre o aumento das chegadas antes de 29 e 30 de julho e a travessia em massa que se seguiu, afirmou um porta-voz da delegação em Ceuta. A delegação não pôde comparecer às reuniões solicitadas pelos sindicatos, mas manteve comunicação constante com a polícia e a Guarda Civil, acrescentou o porta-voz. Moroccan migrants shelter in makeshift camp along Ceuta shoreline Maria Alejandra Cardona Porta-vozes da polícia e da Guarda Civil recusaram-se a confirmar quais discussões foram realizadas com o delegado. Os sindicatos policiais afirmaram que, se alguma reunião ocorreu, nenhuma nova instrução foi emitida a partir dela. Marrocos é um dos vários países do Norte da África que recebem pagamentos da União Europeia para ajudar no policiamento de suas fronteiras. Rabat recebeu 152 milhões de euros em 2023. Segundo analistas, Marrocos afirma gastar cerca de 500 milhões de euros por ano no controle de fronteiras no norte do país e intensifica as verificações fronteiriças quando são detectados apelos para travessias coletivas nas redes sociais. Embora as autoridades fronteiriças espanholas e marroquinas tenham sinalizado um aumento nas tentativas de travessia a partir de meados de julho, medidas mais rigorosas em Marrocos — como verificações em estações de ônibus e trem — só começaram a ser implementadas um ou dois dias antes da travessia em massa. Somente quando o fluxo de chegadas atingiu dezenas de milhares em 29 de julho, Marrocos enviou reforços significativos, de acordo com relatos da mídia, depoimentos de ONGs e uma testemunha da Reuters. "Eles não fizeram nada de proativo. Isso me parece uma falha política", disse Riccardo Fabiani, diretor do projeto para o Norte da África do International Crisis Group. Em Marrocos, uma autoridade de alto escalão do governo afirmou que, após a decisão judicial, questionou seus homólogos espanhóis sobre a possibilidade de problemas. A resposta da Espanha não foi divulgada. Lidar com as consequências seria responsabilidade da Espanha, acrescentou o funcionário, que preferiu não ser identificado. Aumentar o número de forças de segurança não teria resolvido nada, disse uma autoridade de alto escalão do governo marroquino a jornalistas em 3 de agosto, observando que o fator de atração era muito forte.

Fale Conosco